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Blog de Achel Tinoco


DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

A consciência então deve ter-se queimado ao sol da praia do Porto da Barra, nos dias inúteis de sábado e domingo, até se tornar negra. Negra como a burrice preconceituosa daqueles que a fomentam e a alimentam com ervas de burro, somente para encurtar os grilhões de uma escravatura que há muito deveria estar morta e enterrada. Não bastasse a alma de alguns que de tão diáfanas e compungidas tingiram-se de negras para desafiar-nos o entendimento, ainda que o corpo permaneça branco pela bestialidade das ideias ou preto pela eternidade dos fatos, ou quem sabe aqueles outros tão orgulhosos de si que pregam no peito os 100% negros, e por aí vamos todos sem mais poder exibir nossas cores diversas de uma raça única como deveria ser, porque somos hoje iguais aos cachorros de muitos pedigrees e muitas raças puras e impuras a depender da região a qual pertencem, menos as mestiças ou misturadas, em desuso e desvalorizadas. Por isso mesmo até já se escolheu e propagou um dia para o dia da consciência negra que ascenda sobre o palanque todas as autoridades políticas, que algum proveito possa tirar desta data. Se criássemos o dia da consciência branca — cinco dias de feriado estariam de bom tamanho — decerto seriamos intoleravelmente taxados de preconceituosos, racistas, elitistas, indignos e por aí além... Mais para frente, digamos soberbamente que haverá o dia da consciência indígena, o da loira, morena, mameluca e o dia final da consciência maluca, onde todos juntos cantaremos uma canção nova de libertação para que nos matemos pelo meio das ruas, com raiva um da cara do outro, ou nos dividamos em lotes pequenos de duas cores: preto e branco, onde o arco-íris não nos possa mais cobrir a cabeça sob pena de nos transformar não em mulheres, como diz a lenda, mas em ignaros ruminantes. Ah, sim, não nos esqueçamos, portanto, somente aqueles que têm a consciência pura, transparente, incolor, lúcida, poderão reivindicar o reino dos céus, os demais vão se queimar no fogo do inferno ou lá para as bandas da mãe África, aquela que pariu os filhos negros e iguais, com alguma consciência. 



Escrito por Achel Tinoco às 22h46
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APAGÃO BLINDADO

Blindagem.

Agora é de bom tom blindar. Blindam-se tudo: o carro da família, a memória do artista e, principalmente, a ministra-chefe da Casa Civil (candidata à presidência da república), Dilma Rousseff. Nenhum espirro pode-se dar perto dela, é preciso blindá-la; nenhum olhar enviesado, é preciso blindá-la. Já anda às turras com a imprensa, já anda imóvel de tanta blindagem. Bastaria aquela do seu passado. Mas, afinal, por que a ministra precisaria ficar assim tão inescrutável se culpa alguma lhe foi imputada ainda? No caso do apagão elétrico, apenas para exemplificar, não havemos de por sobre as costas da ministra a culpa irresponsável das tempestades, dos raios desvairados e das noites cegas, muito menos o povo “lulista” haveria de se inquietar por causa de um apagaozinho de merda. Ora, dirão eles amanhã, o clima ficou até romântico na madrugada, pudemos finalmente usar as luzes das velas de sete dias para alumiar as ruas sindicais e as casas das boas famílias petistas, porque às outras o breu serviu. Além do mais, ando desconfiado, diz aquele da barbearia, o do MST da padaria, do ministério da alquebraria, isso nada mais é do que uma vingança invejosa da “herança maldita” de certo presidente de antanho. Então ainda não se sabe por que a ministra se protege tanto, ou ainda, por que o governo a esconde tanto dos problemas do país, se ela, possivelmente, vai dirigi-lo daqui para frente. À frente vamos nós, o povo, a parte dele que ainda não aderiu a esse blecaute português sobre uma cegueira coletiva ensaiada.

O restante da turba vem lá atrás.

E talvez não se renda a nenhuma blindagem, mas tenha dentro da cabeça um apagão cerebral bolorento e intemporal.

Sejamos as sombras.

A ministra vai dizer que não sabia da chuva, porque a chuva ainda está por cair sobre a Terra de Oz. Primeiro virão alguns pingos nos por a par da magia, depois uma tempestade benfazeja que fará brotar das linhas de transmissão toda a luz do universo, ao invés de escurecê-lo.

            Somente a minha cabeça está hoje sem luz. E digo que o “lulismo” é igual ao bruxismo: ambos nos fazem ranger os dentes.



Escrito por Achel Tinoco às 17h49
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OS JUDAS

Desta vez, até o papa deve ter ficado de cabelo em pé. Finalmente foi revelado ao mundo a volta do messias, e vejam que não chegou por anúncio divino nem pelo porta-voz do Vaticano, mas pela boca grande do senhor Hugo Chávez. Determinou ainda que Lula não seja mais o cara. Para Chávez, e não somente para ele, Lula é o próprio Cristo americanizado, contanto que não seja do Norte. Falando errado por linhas certas, o próprio Lula já fizera esta comparação ao alinhar na mesma chapa o companheiro Jesus ao desafortunado Judas, sem o acaso da precisão injuriosa. Feito esta alusão blasfematória, correu a dar boas novas àquele que não lhe parece, mas bem pode ser um Judas vitalício afeito as coisas de cá, que num gesto magnânimo, quiçá supremo, alimentou-o e ao seu ego com a ideia requentada do terceiro mandato e por aí além. O que se fez por lá, faz-se por cá. Por que não? — concordam eles. O ditador socialista de lá, bem que pode ser o bonachão ditado de cá. E assim vamos vivendo sob ambas as sombras surreais acinzentando o horizonte.



Escrito por Achel Tinoco às 21h28
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ENSAIO SOBRE A NOSSA LÍNGUA

Qual a riqueza maior de um país? A língua. Todos concordam? Se concordam, por que não se cuida mais dela, a língua? Triste língua portuguesa, maltratada, ignorada, desprezada, reinventada feiamente nos botequins da esquina, nas placas comerciais, nos comerciais da TV. Já não aprendemos a falar corretamente, isso dá ares de boçalidade e preciosismo, dirão alguns sectários da escrita vulgar, copiamos o que ouvimos e ouvimos estarrecidos a própria voz desentoada pelas silabas mal ditas, a concordância medonha, o emprego escasso do acento. Assentado estava eu na terra — e depois caí de costas —, quando ouvi do presidente que ler dá uma preguiça danada, coisa de desocupado, daqueles que não têm o que fazer, como, por exemplo, os escritores, os linguistas, os dicionaristas. “Livros à mão cheia” é coisa de poeta apaixonado e morto, que disse mais pelos amores perdidos nos livros, do que pelos livros perdidos de amores, não sabia onde enfiar o pé — enfiou-lhe ele próprio um tiro no pé —, mas desenrolou habilmente a língua para declamar seus versos de amor, embelezando ainda mais as Vozes d’África. E ela, a mãe de nossa língua, parecia mais bela do que todas as amantes.

            “Ele deixou essas lição pra mim riliar”, como se eu fosse um indiozinho desprezível, incapaz de aprender a concordância das palavras, só porque “mim” não é índio de filmes americanos, portanto, pouco pode fazer em respeito da língua pátria. Se já nos assustávamos com o Tupi-Guarani, imagine só um presidente que tem horror à língua do seu povo, humilhando-a publicamente, pregando-a no céu da boca, para que a boca aberta, ao invés de fechada, não o denuncie e não nos denuncie à pobre gramática ojerizada. Tenhamos ojeriza então de andar com desenvoltura pelas páginas abertas dos livros, de corresponder à verossimilhança das histórias fantásticas e também da realidade inverossímil da arte de aprender, aquela em que se diz que ao povo basta falar e ouvir, mesmo com palavras distorcidas ou gestos de mudos e surdos, porque se esta gente entende tais sinais, basta. Não desperdicemos tempo com aprendizados fúteis, muito menos com o esmero dessa língua tão enrolada. Se aquele que chega ao mercado sabe em poucos dígitos pedir a farinha e o feijão, deixemos a poesia da língua aos portugueses, aos poetas, aos sonhadores, porquanto o cidadão comum não precisa cultuar tais línguas, mesmo que por isso perca a alma e a beleza de existir.

Para o mandatário deste país, “três mês” são bastantes à expressão cultural de toda a coletividade, contanto que seja seu o último arroto de uma nova linguagem ditatorial sobre a voz democrática do povo.    



Escrito por Achel Tinoco às 20h34
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VIDA DE CACHORRO

Quem imaginaria que um dia um trabalhador pudesse se aposentar com dois anos de serviço? Bem, não devemos chamar de trabalhador, no sentido estreito da palavra, quem se ocupa de um cargo eletivo e não diz em seus feitos para o que veio, uma vez que as férias deste são já eternas desde o primeiro dia da diplomação. Digamos então que estejam a praticar as mordomias remuneradas e politicamente usuais do cargo. Sim, um governador que aos dois anos de seu mandato será automaticamente aposentado com o último salário, não passa de um assaltante de bancos públicos, um batedor de urnas da turba ignorante, para descansar amanhã no paraíso. O paraíso da vez é Paris, o da Torre e o do Louvre, ainda que tudo vejam por lá e nada enxerguem por cá, para onde foram o governador da Bahia e o presidente da Assembleia, depois de o projeto ser apresentado por este último com a aquiescência daquele outro: a famigerada aposentadoria por tempo de governabilidade — dois anos. Para eles é justo, justíssimo, explicam afinal que um governador ao deixar o cargo para o qual fora eleito democraticamente, não consegue uma colocação no mercado. Colocação? Isso mesmo, aquilo que se incute na cabeça do povo antes de cada eleição, com o intuito único de furtar o seu voto. Dito isto, que me apresentem um ex-governador, tadinho, desempregado, e que não esteja ainda amamentando nas tetas do poder. Não tarda, esse mesmo parlamentar ou outro de igual teor político, nos ofuscará com um novo projeto de lei aplicando de imediato e retroativo aposentadoria aos animais de estimação do prefeito, do governador e do presidente, neste caso, o da República, claro fica grafado, garfado e imediatamente ignorado. Todo cachorro, por exemplo, que ao se instalar no palácio e não emitir um único latido (ou ladrar, se ladrar não tiver o mesmo significado de roubar) pelas próximas duas horas, mesmo que de focinheira esteja, terá direito à aposentadoria compulsória — aos setenta dias —, retroativa ao primeiro latido.

Ao povo, ora, deixe-o à própria vida de cachorro lá onde vive desde sempre na Bahia, “terra de todos nós.”



Escrito por Achel Tinoco às 19h43
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HOMENAGEM COM DINHEIRO PÚBLICO

“Não se ‘aceda’ aos seus ‘alimites’”, disse esta frase trôpega o querido amigo Serginho, num final de tarde luminosa no Bar do Piu, depois das onze garrafas de cervejas dispostas sobre a mesa, aclarado esteja. Pensei que não tinha outros aplicativos para ela que não fosse os da troça e os do riso frouxo da hora. Mas agora, diante da sobra de excessos e da falta de limites do governo em sua ânsia desmedida de alavancar votos e prestígio, vejo que a frase cabe perfeitamente ao sistema atual de absurdos que se vê pelo Brasil afora. Não bastasse a Copa do Mundo de Futebol em 2014, os Jogos Olímpicos em 2016, as desconfianças permanentes no COB, os favores e promessas de cada político, algum benemérito do poder público e do dinheiro alheio urge com a homenagem tardia aos campeões das cinco copas do mundo de futebol — cento e quinze jogadores, se contarmos vinte e três para cada copa, sem por nesta conta os técnicos, médicos e auxiliares. É só fazer os cálculos... Para presenteá-los, o governo federal quer dar a cada um algo em torno de 400 mil reais, pouco mais até.

Não faz muito, o governo paulista foi obrigado a devolver aos cofres públicos o dinheiro dos Fuscas dado aos campeões de 1970, na gestão do senhor Paulo Maluf. O senhor Paulo Maluf não gostava de futebol, senão não o teria envergonhado com o seu gesto populista. Se a justiça entendeu assim, então como se pode conceber que nos dias de hoje a mão oficial do poder desbote as cinco estrelas da camisa canarinho com outro prêmio ainda mais imoral e mais caro? Afinal, todos os jogadores, sem exceção, receberam a recompensa que lhes cabia pelas suas conquistas e nunca reivindicaram coisa além que não fosse o reconhecimento pela glória das taças conquistadas com honra, orgulho e dignidade.

Na sua coluna de domingo, no jornal A Tarde, o ex-jogador Tostão disse que podem tirar o nome dele da lista, não aceita o prêmio porque não vê sentido nessa homenagem atrasada e também porque não seria justo para com os atletas campeões em outras modalidades, nem mesmo com os colegas de copas perdidas que apesar de lutarem tanto não conseguiram trazer o caneco, além do que o dinheiro é público. Tostão nos demonstra o quanto é um homem de caráter e acima de tudo consciente de sua condição eterna de ídolo. Sabe o quanto fez e o que fez pela sua pátria de chuteiras, portanto não se faz preciso que o governo macule a sua bola, enchendo-a além das libras devidas e de maneira ignóbil. Se dinheiro está sobrando, que este seja aplicado na construção de quadras esportivas, ginásios, piscinas, para servirem a milhares de crianças e de atletas que desenvolverão suas habilidades, afinal, havemos de competir nas Olimpíadas de casa e para isso ainda não temos atletas. Ou será que os políticos dependurarão seus paletós imundos nos espaldares e vão à luta...?

Queria ver a cara deles se nenhum jogador aceitasse essa homenagem indecente!

“Não se ‘acederiam’ mais aos seus ‘alimites’”.  



Escrito por Achel Tinoco às 17h37
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'PÉROLA' DO ENEM

Caros alunos, como deveriam saber, o Enem foi criado para avaliar o conhecimento de vocês e não a honestidade de cada um ou os bons exemplos que se poderiam levar pela vida estudantil afora. Seria, utopicamente, o registro de uma classe que vai se desenvolvendo à medida dos bons méritos para formar um Brasil melhor, saudável e aprazível culturalmente. Então houve um vazamento, não um crime, mas um vazamento como aquele do cano furado do banheiro de sua casa que, com um pouco de massa de durepox basta para se tapar, ao invés do serviço completo de um profissional competente para consertá-lo de uma vez por todas e sanar o problema.

            Disse o ministro da educação que ninguém precisa se preocupar, tudo será investigado e resolvido, pois sim, voltem as suas casas e continuem a estudar. Nós de cá, estamos tomando todas as providências, ele disse, e os responsáveis arcarão com os prejuízos. Só isso? Tudo resolvido? Ora, e quem vai arcar com as expectativas e a ansiedade de vocês, alunos? E os custos da família, os deslocamentos, o tempo...? Ah, isso não importa agora, veremos depois, afinal, hoje estamos mais preocupados com a confirmação do Rio de Janeiro como sede de uma próxima olimpíada, cara! Ademais, os 30 milhões gastos com a impressão dos exames do Enem, é uma merreca inculta comparada à grandeza do evento que está por vir — 180 milhões de reais, oficialmente, somente com a apresentação do projeto ao comitê olímpico internacional, já foram torrados.

            Então, baratos alunos, vão para casa assistir ao anúncio dos jogos, ao show olímpico, aos refestelados representantes brasileiros desfilando seus sorrisos de hiena, seus beijos lacrimejados de jacaré, seus abraços de ursos por terras dinamarquesas, fingindo que somos o povo da paz, da riqueza e da sabedoria. “Sim, nós podemos”, parodiou o presidente do Brasil. Quando voltarem à realidade, quem sabe, se inteirarão dos fatos daqui. Outros concursos sempre apor uma marca às cartas ou “vazar” as provas, afinal, se este do Enem que não envolve disputa por salários astronômicos, apenas a aprovação do mérito, foi assim, imaginem vocês aqueles dos grandes salários, dos grandes juízes da razão, dos grandes apadrinhados da política, como não serão?

            Serão mais uma vez postos em prova daqui a alguns dias ou meses, e o resultado não nos surpreenderá, porque sabemos que neste país até um concurso para se tomar injeção na testa deve ser fraudado. Por outro lado, sim, podemos não responder a esta questão perolizada: quando seremos, afinal, um país sério à prova de Enem?



Escrito por Achel Tinoco às 18h11
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DIA DOS POLÍTICOS

Depois dizem que os políticos deste país não trabalham e são pouco criativos. São tão geniais e laboriosos às vezes que o suor pinga de seus cérebros disformes, mas engenhosos. Vejam, pois, as novas que eles nos apresentam, depois de muito pensar e meditar e matutar; depois de muito descobrir os seus papéis no parlamento: querem tão somente aprovar estas datas comemorativas: O dia do rock, O dia da salsa, O dia do cliente propagandista, O dia do outdoor, O dia do compromisso com a criança, o Dia do Umbuzeiro, O dia do Sonho, e outros mais quantos puderem nos empurrar goela abaixo, para depois inscreverem seus nomes heróicos na história contemporânea da política. Para que servirão estes dias na folhinha? Ora, sabe-se lá, para..., digamos..., para vermo-los pregados em um imã na porta da geladeira, talvez.

Decerto eles têm um sonho, o de nos transformar num povo anencéfalo, que faça da bola de futebol o seu lugar de origem e do carnaval o seu lugar no futuro, com um destes na direção de todos nós, claro está, para que o próximo ano nos seja feito como um poema branco e fora de época. A despeito de povoar as câmaras apenas para descalçar os calcanhares e tirar uns cochilos ao parolar de algum colega à frente do púlpito discorrendo sobre o umbuzeiro que lhe dera a ideia ou sobre o pé de salsa que inspirara tão freneticamente a outra colega, eles nos subtrai os votos ou nos compram pela metade de uma nota de 50, ou pela metade de uma dentadura feita a granel, ou pela metade de nossas consciências políticas reduzidas ao meio do sol fervente do meio-dia, quando os filhos choram de fome e precisam de um punhado de farinha trazido no lombo dos burros pela Caatinga fora em bolsas supostas para toda a família.

Mais esdrúxulas do que essas datas comemorativas somente a disposição dessa gente de não largar o osso, o gostoso poder, as benesses do cálcio, e para isso fazem das câmaras lixeiras onde depositam suas podres ideias e suas tripas já tão fedorentas faz tempo. Quase nada do que produzem ali pode ser levado a sério, parecem mais dispostos a organizar um programa humorístico do que a vida da população, nada do que dizem tem mínimo valor, nada do que pensam cabe num crânio meramente normal. Diante do tanto exposto, poderíamos sugerir-lhes O dia dos idiotas, O dia dos inescrupulosos, O dia dos caras-de-pau, e se sobrar-lhes algum relincho, bem que poderiam criar na data de hoje, 28 de setembro, O dia dos jumentos políticos, daqueles que lá já estão nas câmaras de vereadores e dos deputados.

Pena que não tenhamos ainda instalada nos órgãos públicos esta outra câmara: a câmara de gás...  



Escrito por Achel Tinoco às 22h45
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OS DE FIACHAS-LIMPAS ENTÃO

Não, não e não! Não sejamos tão exigentes com os políticos, oxente! Querer deles que tenham as fichas sempre limpas e passadas à goma para apresentar à boca da urna, é mais utópico do que o pré-sal educativo de Lula ou o socialismo ditatorial de Chávez. Principalmente porque estamos velhos de saber, quando um bando de ignorantes se une para tramar em causa própria, não trança a rede de modo a não se balançar dentro dela. Se não têm discernimento para fazer leis que ajudem o país a sustentar suas colunas e afagar seu povo, têm todo o engenho, como bois de canga, para legislar em causa própria, puxando a moenda instintivamente na mesma direção. Por isso quando alguém berra no horizonte, não é a consciência dessa gente lhe impondo o bagaço castigado, não mesmo, é uma voz perdida no engenho que engasgara com o caldo da cana.

Pedimos tão somente, isto se tivermos garapa à disposição para tal invento por aí além, que melhorem um pouco a qualidade do pão nosso de cada dia, para que não morramos todos com as veias entupidas do coração nem com o diabetes nos trapaceando as pernas; pedimos tão somente que sejam mais benevolentes com o povo que, humildemente, os elege em troca das migalhas bolsistas e das cotas raciais dos desfavorecidos, e ainda se vos sobrar boas intenções, olhai por todos nós de modo que não lhes pareçamos pobres diabos desassistidos do inferno cabal de Dante. Aqueles, que de boas intenções, povoaram o inferno, nos perdoe a malquerença, mas entendam desinteressadamente que quando aos porcos são jogados os bagaços do engenho, todos os que lá estão se espojando na lama nos parecem porcos, por isso os colocamos na mesma cota, não a de negros, mas a de porcos, de porcos políticos então.

Esperemos, pois, desde a meninice desta surrada democracia, que este país nos surpreenda positivamente com as vias do desenvolvimento, não somente do desenvolvimento econômico, mas de igual teor, do desenvolvimento moral, intelectual e ético, que nos faça sentir orgulho de sermos um povo e um povo realmente brasileiro, que viva condignamente, sem que por isso seja tratado como os bois do engenho pelos porcos de Brasília.    



Escrito por Achel Tinoco às 19h39
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SUA ÁRVORE GENEALÓGICA

O que seria Árvore Genealógica sob a lógica do prefeito de Cafarnaum, Ivanilton Oliveira? Vamos ao concurso para testar seus conhecimentos então: para ele esta árvore é sempre produtiva, de bons frutos, de quebra-galhos. Não bastassem as ramificações que o levaram à prefeitura, o referido prefeito e sua árvore — acrescida da irmã, esposa, sobrinhos, primos e quantos mais fossem os frutos desta representação gráfica —, justamente ao cabo de sua posse, impôs a si mesmo e a esses tantos parentes um teste de conhecimento que fosse capaz de julgar apenas os concorrentes consanguíneos, tendo à frente tão somente o cargo para o qual fora eleito e para o qual usa agora como referencial de suas expectativas e ambições. Os outros postulantes, aqueles colhidos do umbuzeiro, do juazeiro e do mandacaru, ficariam por ali a preencher as fichas, a rabiscar as folhas, a ralar-se aos caules, bem sabem que o coeficiente de vossa excelência, proveniente de sua generosa genealogia, é inúmeras vezes mais elevada que a mais elevada das árvores da caatinga, como elevada e sem lei deve ser a madeira que compõe sua essência.

            O concurso público, de múltiplas escolhas, para marcar um X de paus onde lhe fosse cabível, devia ter somente duas perguntas: “Qual o nome do prefeito reeleito de Cafarnaum, com o lema ‘O progresso continua’?”, e a outra, mais alongada por mim: “Como se chama o profissional da medicina que deveria cuidar da saúde da população de Cafarnaum, tendo sido eleito para um cargo eletivo, e hoje aspira ao pólen, ou aos excrementos, de sua própria árvore municipal para passar neste concurso em primeiro lugar?” As outras perguntas — tão difíceis quanto estas — não são relevantes ao escandalizado leitor, mas sabe-se que foram igualmente respondidas pelo parentesco do executivo e todos foram aprovados com louvor, uns mais outros menos, porque não havia colocação primeira a toda gente. Os outros concorrentes não puderam responder a tantas perguntas; a memória se lhes faltaram.

            Entenda-se que o prefeito é também médico. Entendamos que o prefeito é também político, por isso age como político e não como médico. Mas se o povo neste exato momento fosse um paciente, estaria morto por falta de cuidado e de atenção, ou por negligência mesmo, daquelas com as quais os poderes públicos são constituídos.

              



Escrito por Achel Tinoco às 18h38
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RIO DAS PEDRAS

Se o rio está morto, como pode ele ainda respirar? Mais morto do que isso só mesmo o Rio das Pedras, no Imbuí: não bastasse morto há tempo pela natureza de seu curso, morto está outra vez pelos poderes públicos, que o querem ressuscitar para as próximas eleições, como fizeram com o da Avenida Centenário. Parece não haver na prefeitura de Salvador um corpo jurídico ou técnico capaz de analisar e dar os pareceres cabíveis aos projetos. O corpo que há lá, o do prefeito, está inerte ou em estado de putrefação política.

            Tudo pronto, obras à vista, placas de propaganda assentadas, eis que chegam os órgãos ‘agora competentes’ e nada mais pode ser feito, desfaz-se o que ainda não tinha sido feito, faz-se com efeito ambiental respiradouros para o rio. Mas, como, se o rio já está morto? Ora, isso é problema do rio, quem lhe mandou morrer antes de ser necropiciado pelos urubus plantonistas! Para fechar o rio, e livrar a população daquela área de suas sujeiras e fedores, vamos tapá-lo com plaquinhas translúcidas perfuradas para que as piabas e os tambaquis possam, além de respirar, tomar um banho de sol e, se for de agrado do prefeito, à boca da urna, quiçá um banho de luz daqueles que tem propagado por toda a cidade. As placas já compradas, por uma fábula municipal, não servem mais, não servem para nada, para nada servirão, façamo-las, pois, de colchões aos cachorros das ruas. As novas, deixemos claro pelas frestas translúcidas, serão retiradas gradativamente, à medida que o rio ressuscite.

            E quando isso acontecer, estamos falando ainda do renascimento do Rio das Pedras, o prefeito, ora em seu justo descanso nas profundezas diáfanas do céu, estará em seu sétimo mandato com prefeito de Marte. E nós, aqui, nós os nossos descendentes, já na sétima ou oitava geração, poderemos finalmente pescar alguns daqueles peixinhos que teimam em vir à tona buscar um pouco de ar.



Escrito por Achel Tinoco às 11h40
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MANICÔMIO POLÍTICO

Não poderíamos deixar em branco tão desavergonhado cúmulo, este cuja publicação já foi imposta ao Diário Oficial, e outro de semelhante teor desavergonhado, cuja aprovação ao projeto espera para logo. Vamos a eles:

            Na Bahia das desleixadas ratazanas, das malcheirosas vielas, das mais cínicas “refestelações”, aqueles funcionários públicos sem quaisquer perspectivas de além que não seja tricotar o tempo à espera longa da aposentadoria miserável, se se aventuraram ou se aventurarem na carreira política, têm seus méritos finalmente reconhecidos. Candidato que foi, ou será, reeleito deputado estadual, tem por toda a vida, de modo redundante mas vitalício, exercendo o mandato ou não, o último salário de parlamentar como aposentado. Não é conversa de botequim, quem dera fosse, não nos sentiríamos tão incomodados e desgovernados. De quem foi esta ‘ratoeira’? De um tal Luciano Simões. Alguém o conhece? Do mesmo PMDB a qual pertence José Sarney, aquele dos atos secretos, das assinaturas fantasmas e do bigode postiço; o do mesmo barro, da mesma farinha, do mesmo saco. Este parlamentar, o Simões, ao qual nos referimos, alega da tribuna que foi eleito para nos representar, seguindo a cartilha da velha utopia de direita e de esquerda, quiçá de meio, um homem do povo que do povo tirou os votos, e para o povo agora distribui bananas e ratoeiras. Adiante vai ele, no final do mês, manquitolando, as mãos ensaboadas, a boca torta, ganhar sua gorda aposentadoria.

            Nesta mesma Bahia dos burros surfistas, dos cavalos de fraldas e dos cavaleiros chorões, eis que surge, de salto alto e minissaia moonwalker, o vereador Léo Kret, que apresenta um projeto de lei concedendo a Michel Jackson o título de “Cidadão de Salvador”. Não estamos falando de Thriller, o clip, nem de outra história de terror, mas do sepultamento da vergonha na cara de políticos baianos. Para receber o famigerado título, viriam à capital baiana os pais do astro pop, com todas as despesas pagas pelo município, como pretende o vereador, mas não tem certeza, porque ainda não conhece as leis vigentes, está-se inteirando dos rega-bofes, dos aviamentos e dos pontos em cruz, podemos assim dizer. Esperemos que não seja necessário fazer o traslado do corpo do cantor dentro daquele caixão banhado a ouro para assistir à cerimônia, sob pena de o mesmo ser furtado à porta da câmara antes dos discursos finais. Pior seria o ignaro vereador a imitar seus passos, não os de morto, mas os de vivo, enquanto que o povo eleitor dança lá fora os passos da gente sem nada entender.

Não sei se foi este vereador assessorado por aquele deputado, ou se foi aquele deputado padrinho deste vereador, mas ambos, conjuntamente, poderiam bem apresentar um projeto para a construção — anexo à câmara e à assembléia —, de um manicômio político onde pudéssemos internar cada vereador e cada deputado que tal ideia tivesse.

           

 

 



Escrito por Achel Tinoco às 23h40
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A BORBOLETA E O COBRADOR

Quando a borboleta gira, todos olham imediatamente para trás, sobressaltados e com medo de que o próximo passageiro seja um suposto assaltante e anuncie o assalto. Um olha para o outro, desconfiado, como se desejasse filmar o bolso íntimo da calça, na verdade um celular. A viagem prossegue silenciosa, somente o rangido duro dos assentos de fibra, o estridente vendedor de balas, cinco por 1 real, uma senhora de pé no corredor, os dedos buscando em vão o cano de ferro do teto, compra e a oferece à falta de gentileza do rapaz encolhido na poltrona da janela. Um freio de arrumação: peleja um homem a falar que sua mulher precisa fazer uma cirurgia do coração, mostra a receita de mil remédios, dez exames, uma radiografia. Poucos acreditam, desce no ponto seguinte, a ladainha. Outra vez o rangido penoso da borboleta, o cobrador estala as moedas de troco, olhos sincronizados na mesma direção, uma blitz obriga o coletivo a parar: todos para fora, somente os homens, as mãos espalmadas na lateral esperando a boa vontade do policial vir espremer seus colhões. Um suspiro enfadonhado; presta queixa; a borboleta agoniza a ferrugem; gritos e lágrimas; o tiro ecoa nas estatísticas.

            E eu não vou à 7a Delegacia, no Rio Vermelho...   

 

 



Escrito por Achel Tinoco às 22h35
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CAETANO E O MUSEU

Que mais podemos fazer senão criticar, senão mostrar e pedir que todos leiam e vejam bem como são as coisas na Bahia? Como sabemos, o Museu Carlos Costa Pinto, na Vitória, está agonizando: as portas, à porta de serem fechadas por falta de dinheiro, e a diretora escorando-as com as próprias mãos para que não as fechem. Mas esta semana, a conta de luz foi cortada por falta de pagamento, a metade dos funcionários foi demitida, as peças de arte descuidadas.

Outro dia todo o acervo de Jorge Amado quase foi perdido porque o governo não se dispunha a pagar alguns tostões para mantê-lo entre nós, e se não fosse a intervenção de João Ubaldo, estaria agora em Paris. Enquanto isso, os grandes artistas da Boa Terra, que têm projeção internacional, pouco dizem e pouco fazem para amenizar a situação, pelo contrário, usam de suas importâncias tão somente para conseguir o que almejam, contanto que se verta em benefícios para si próprios, como foi o caso de Caetano Veloso, que pleiteou — e conseguiu — junto ao Ministério da Cultura uma verbinha de 2 milhões de reais para patrocinar sua nova turnê pelo Brasil. Ora, será mesmo que essa turnê não se pagava? Não seria ela auto-sustentável? Claro que sim, um artista como ele tem público cativo, no entanto com influência e aquela conversa tudo se ajeita para os grandes, enquanto que os pequenos têm a porta fechada na cara, como acontece, vergonhosamente, com o museu.

Parece que os artistas daqui só são baianos na hora da propaganda, das homenagens, da festa. Quando precisamos que levantem a voz para defender a Bahia e a sua história ou para defender a sua gente, eles não podem; têm compromissos; estão cansados. Já temos tão pouco de cultura, não é justo perder mais um espaço como o é aquele belíssimo museu, ou será que nos basta apenas a reconstrução da Fonte Nova, o Carnaval ou a música dos famosos?

Não, acho que não, nos bastará também a alegria de vermos nossa cidade bem cuidada, com seus monumentos e praças protegidos e um povo alegre que gosta de tudo: das igrejas, das praias e até dos museus.

 

 



Escrito por Achel Tinoco às 16h28
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COBRAS E MOSQUITOS

O Brasil vive hoje em "estado de graça", melhor dizendo: "em estado de Lula", que a tudo assiste e dar seus pitacos gracejosos e metafóricos para uma platéia desinformada, mas sempre risível e hipnotizada. Ora, se alguém ousa em criticá-lo, ele brada das alturas pingando em suor que são as elites, os jornalistas, a herança maldita dos governos passados. Se descobriram o petróleo, foi ele; se a dengue se alastrou, foi seu antecessor... Enquanto não se entende a pendenga histórica dessas políticas, um menino de Goiânia vai aos tribunais da justiça para provar que a picadura de um mosquito da dengue o impossibilitara de trabalhar durante cinco dias, caso contrário perderá o emprego. Não é só isso, ele precisa provar também que o mero mosquitinho residia naquela cidade. Por quê? Ora, se o mosquito for natural da capital federal, por exemplo, a responsabilidade pelas faltas do menino caberá naturalmente ao governo federal. Mas, se, depois de um exame de DNA do mosquito - certamente o advogado de defesa do mosquito o pedirá - for comprovado que o inseto é mesmo goiano, neste caso quem deve ser responsabilizado criminalmente é o governo estadual. Já prevendo este desfecho então, o governo daquele estado deve imputar ao município a culpa pela picadura no menino. Risos a parte, o menino já perdeu o emprego mesmo assim, e a sentença sairá daqui a dez anos, qual seja: a culpabilidade pela picadura infecciosa não foi dos governos federal, estadual ou municipal; foi mesmo do menino que não passou repelente no corpo.

            Outro caso semelhante aconteceu recentemente: um menino estava com o pai tomando banho num rio quando foi atacado por uma cobra grande - uma sucuri. Ela se enrolou em suas pernas e queria porque queria engoli-lo - coisas de cobra! Mas saibam que o menino não se deu por vencido, depois de muita luta e de muitos arranhões, com a ajuda do pai desesperado, ele conseguiu desvencilhar-se por um instante e atingiu a cabeça da cobra com uma faca de caça, matando-a. Tudo certo? Não. Depois do ato considerado heróico por alguns, o pai e o filho levaram a cobra morta de seis metros - já com o exagero acrescido por um pescador - para a cidade, mostrar aos amigos, aos curiosos, quanto fosse possível aumentar o ato de bravura de ambos, quiçá tornar-se lenda. Foi aí que o caldo entornou: imaginem vocês que nessa hora de festa pela sobrevivência do menino, a cobra abatida ao lado, chegou a justiça, solícita e pontual, para prender o "assassino". Assassino? Exato, este que matou um animal silvestre. Ora, mas nem o menino nem o pai sabiam lá que diabos era um "animal silvestre"! Pretendiam apenas salvar suas vidas. Mas a justiça é cega, não se esqueçam. E o menino pode ser preso imediatamente por ter cometido um crime inafiançável: matou uma cobra que lhe queria matar. Nem adianta alegar "legítima defesa", decerto a cobra lhe dera todos os direitos e ele nenhum à cobra.

"Teje preso, então".

Esperamos, pois, que o menino que foi picado pelo mosquito da dengue não seja preso também. E àqueles, como eu, que tecem críticas tão singelas à falta de educação, de saúde, de transporte, de lazer e de piadas mais engraçadas...



Escrito por Achel Tinoco às 12h22
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