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COBRAS E MOSQUITOS
O Brasil vive hoje em "estado de graça", melhor dizendo: "em estado de Lula", que a tudo assiste e dar seus pitacos gracejosos e metafóricos para uma platéia desinformada, mas sempre risível e hipnotizada. Ora, se alguém ousa em criticá-lo, ele brada das alturas pingando em suor que são as elites, os jornalistas, a herança maldita dos governos passados. Se descobriram o petróleo, foi ele; se a dengue se alastrou, foi seu antecessor... Enquanto não se entende a pendenga histórica dessas políticas, um menino de Goiânia vai aos tribunais da justiça para provar que a picadura de um mosquito da dengue o impossibilitara de trabalhar durante cinco dias, caso contrário perderá o emprego. Não é só isso, ele precisa provar também que o mero mosquitinho residia naquela cidade. Por quê? Ora, se o mosquito for natural da capital federal, por exemplo, a responsabilidade pelas faltas do menino caberá naturalmente ao governo federal. Mas, se, depois de um exame de DNA do mosquito - certamente o advogado de defesa do mosquito o pedirá - for comprovado que o inseto é mesmo goiano, neste caso quem deve ser responsabilizado criminalmente é o governo estadual. Já prevendo este desfecho então, o governo daquele estado deve imputar ao município a culpa pela picadura no menino. Risos a parte, o menino já perdeu o emprego mesmo assim, e a sentença sairá daqui a dez anos, qual seja: a culpabilidade pela picadura infecciosa não foi dos governos federal, estadual ou municipal; foi mesmo do menino que não passou repelente no corpo. Outro caso semelhante aconteceu recentemente: um menino estava com o pai tomando banho num rio quando foi atacado por uma cobra grande - uma sucuri. Ela se enrolou em suas pernas e queria porque queria engoli-lo - coisas de cobra! Mas saibam que o menino não se deu por vencido, depois de muita luta e de muitos arranhões, com a ajuda do pai desesperado, ele conseguiu desvencilhar-se por um instante e atingiu a cabeça da cobra com uma faca de caça, matando-a. Tudo certo? Não. Depois do ato considerado heróico por alguns, o pai e o filho levaram a cobra morta de seis metros - já com o exagero acrescido por um pescador - para a cidade, mostrar aos amigos, aos curiosos, quanto fosse possível aumentar o ato de bravura de ambos, quiçá tornar-se lenda. Foi aí que o caldo entornou: imaginem vocês que nessa hora de festa pela sobrevivência do menino, a cobra abatida ao lado, chegou a justiça, solícita e pontual, para prender o "assassino". Assassino? Exato, este que matou um animal silvestre. Ora, mas nem o menino nem o pai sabiam lá que diabos era um "animal silvestre"! Pretendiam apenas salvar suas vidas. Mas a justiça é cega, não se esqueçam. E o menino pode ser preso imediatamente por ter cometido um crime inafiançável: matou uma cobra que lhe queria matar. Nem adianta alegar "legítima defesa", decerto a cobra lhe dera todos os direitos e ele nenhum à cobra. "Teje preso, então". Esperamos, pois, que o menino que foi picado pelo mosquito da dengue não seja preso também. E àqueles, como eu, que tecem críticas tão singelas à falta de educação, de saúde, de transporte, de lazer e de piadas mais engraçadas...
Escrito por Achel Tinoco às 12h22
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