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A BORBOLETA E O COBRADOR
Quando a borboleta gira, todos olham imediatamente para trás, sobressaltados e com medo de que o próximo passageiro seja um suposto assaltante e anuncie o assalto. Um olha para o outro, desconfiado, como se desejasse filmar o bolso íntimo da calça, na verdade um celular. A viagem prossegue silenciosa, somente o rangido duro dos assentos de fibra, o estridente vendedor de balas, cinco por 1 real, uma senhora de pé no corredor, os dedos buscando em vão o cano de ferro do teto, compra e a oferece à falta de gentileza do rapaz encolhido na poltrona da janela. Um freio de arrumação: peleja um homem a falar que sua mulher precisa fazer uma cirurgia do coração, mostra a receita de mil remédios, dez exames, uma radiografia. Poucos acreditam, desce no ponto seguinte, a ladainha. Outra vez o rangido penoso da borboleta, o cobrador estala as moedas de troco, olhos sincronizados na mesma direção, uma blitz obriga o coletivo a parar: todos para fora, somente os homens, as mãos espalmadas na lateral esperando a boa vontade do policial vir espremer seus colhões. Um suspiro enfadonhado; presta queixa; a borboleta agoniza a ferrugem; gritos e lágrimas; o tiro ecoa nas estatísticas. E eu não vou à 7a Delegacia, no Rio Vermelho...
Escrito por Achel Tinoco às 22h35
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