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RIO DAS PEDRAS
Se o rio está morto, como pode ele ainda respirar? Mais morto do que isso só mesmo o Rio das Pedras, no Imbuí: não bastasse morto há tempo pela natureza de seu curso, morto está outra vez pelos poderes públicos, que o querem ressuscitar para as próximas eleições, como fizeram com o da Avenida Centenário. Parece não haver na prefeitura de Salvador um corpo jurídico ou técnico capaz de analisar e dar os pareceres cabíveis aos projetos. O corpo que há lá, o do prefeito, está inerte ou em estado de putrefação política. Tudo pronto, obras à vista, placas de propaganda assentadas, eis que chegam os órgãos ‘agora competentes’ e nada mais pode ser feito, desfaz-se o que ainda não tinha sido feito, faz-se com efeito ambiental respiradouros para o rio. Mas, como, se o rio já está morto? Ora, isso é problema do rio, quem lhe mandou morrer antes de ser necropiciado pelos urubus plantonistas! Para fechar o rio, e livrar a população daquela área de suas sujeiras e fedores, vamos tapá-lo com plaquinhas translúcidas perfuradas para que as piabas e os tambaquis possam, além de respirar, tomar um banho de sol e, se for de agrado do prefeito, à boca da urna, quiçá um banho de luz daqueles que tem propagado por toda a cidade. As placas já compradas, por uma fábula municipal, não servem mais, não servem para nada, para nada servirão, façamo-las, pois, de colchões aos cachorros das ruas. As novas, deixemos claro pelas frestas translúcidas, serão retiradas gradativamente, à medida que o rio ressuscite. E quando isso acontecer, estamos falando ainda do renascimento do Rio das Pedras, o prefeito, ora em seu justo descanso nas profundezas diáfanas do céu, estará em seu sétimo mandato com prefeito de Marte. E nós, aqui, nós os nossos descendentes, já na sétima ou oitava geração, poderemos finalmente pescar alguns daqueles peixinhos que teimam em vir à tona buscar um pouco de ar.
Escrito por Achel Tinoco às 11h40
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