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ENSAIO SOBRE A NOSSA LÍNGUA
Qual a riqueza maior de um país? A língua. Todos concordam? Se concordam, por que não se cuida mais dela, a língua? Triste língua portuguesa, maltratada, ignorada, desprezada, reinventada feiamente nos botequins da esquina, nas placas comerciais, nos comerciais da TV. Já não aprendemos a falar corretamente, isso dá ares de boçalidade e preciosismo, dirão alguns sectários da escrita vulgar, copiamos o que ouvimos e ouvimos estarrecidos a própria voz desentoada pelas silabas mal ditas, a concordância medonha, o emprego escasso do acento. Assentado estava eu na terra — e depois caí de costas —, quando ouvi do presidente que ler dá uma preguiça danada, coisa de desocupado, daqueles que não têm o que fazer, como, por exemplo, os escritores, os linguistas, os dicionaristas. “Livros à mão cheia” é coisa de poeta apaixonado e morto, que disse mais pelos amores perdidos nos livros, do que pelos livros perdidos de amores, não sabia onde enfiar o pé — enfiou-lhe ele próprio um tiro no pé —, mas desenrolou habilmente a língua para declamar seus versos de amor, embelezando ainda mais as Vozes d’África. E ela, a mãe de nossa língua, parecia mais bela do que todas as amantes. “Ele deixou essas lição pra mim riliar”, como se eu fosse um indiozinho desprezível, incapaz de aprender a concordância das palavras, só porque “mim” não é índio de filmes americanos, portanto, pouco pode fazer em respeito da língua pátria. Se já nos assustávamos com o Tupi-Guarani, imagine só um presidente que tem horror à língua do seu povo, humilhando-a publicamente, pregando-a no céu da boca, para que a boca aberta, ao invés de fechada, não o denuncie e não nos denuncie à pobre gramática ojerizada. Tenhamos ojeriza então de andar com desenvoltura pelas páginas abertas dos livros, de corresponder à verossimilhança das histórias fantásticas e também da realidade inverossímil da arte de aprender, aquela em que se diz que ao povo basta falar e ouvir, mesmo com palavras distorcidas ou gestos de mudos e surdos, porque se esta gente entende tais sinais, basta. Não desperdicemos tempo com aprendizados fúteis, muito menos com o esmero dessa língua tão enrolada. Se aquele que chega ao mercado sabe em poucos dígitos pedir a farinha e o feijão, deixemos a poesia da língua aos portugueses, aos poetas, aos sonhadores, porquanto o cidadão comum não precisa cultuar tais línguas, mesmo que por isso perca a alma e a beleza de existir. Para o mandatário deste país, “três mês” são bastantes à expressão cultural de toda a coletividade, contanto que seja seu o último arroto de uma nova linguagem ditatorial sobre a voz democrática do povo.
Escrito por Achel Tinoco às 20h34
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VIDA DE CACHORRO
Quem imaginaria que um dia um trabalhador pudesse se aposentar com dois anos de serviço? Bem, não devemos chamar de trabalhador, no sentido estreito da palavra, quem se ocupa de um cargo eletivo e não diz em seus feitos para o que veio, uma vez que as férias deste são já eternas desde o primeiro dia da diplomação. Digamos então que estejam a praticar as mordomias remuneradas e politicamente usuais do cargo. Sim, um governador que aos dois anos de seu mandato será automaticamente aposentado com o último salário, não passa de um assaltante de bancos públicos, um batedor de urnas da turba ignorante, para descansar amanhã no paraíso. O paraíso da vez é Paris, o da Torre e o do Louvre, ainda que tudo vejam por lá e nada enxerguem por cá, para onde foram o governador da Bahia e o presidente da Assembleia, depois de o projeto ser apresentado por este último com a aquiescência daquele outro: a famigerada aposentadoria por tempo de governabilidade — dois anos. Para eles é justo, justíssimo, explicam afinal que um governador ao deixar o cargo para o qual fora eleito democraticamente, não consegue uma colocação no mercado. Colocação? Isso mesmo, aquilo que se incute na cabeça do povo antes de cada eleição, com o intuito único de furtar o seu voto. Dito isto, que me apresentem um ex-governador, tadinho, desempregado, e que não esteja ainda amamentando nas tetas do poder. Não tarda, esse mesmo parlamentar ou outro de igual teor político, nos ofuscará com um novo projeto de lei aplicando de imediato e retroativo aposentadoria aos animais de estimação do prefeito, do governador e do presidente, neste caso, o da República, claro fica grafado, garfado e imediatamente ignorado. Todo cachorro, por exemplo, que ao se instalar no palácio e não emitir um único latido (ou ladrar, se ladrar não tiver o mesmo significado de roubar) pelas próximas duas horas, mesmo que de focinheira esteja, terá direito à aposentadoria compulsória — aos setenta dias —, retroativa ao primeiro latido. Ao povo, ora, deixe-o à própria vida de cachorro lá onde vive desde sempre na Bahia, “terra de todos nós.”
Escrito por Achel Tinoco às 19h43
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HOMENAGEM COM DINHEIRO PÚBLICO
“Não se ‘aceda’ aos seus ‘alimites’”, disse esta frase trôpega o querido amigo Serginho, num final de tarde luminosa no Bar do Piu, depois das onze garrafas de cervejas dispostas sobre a mesa, aclarado esteja. Pensei que não tinha outros aplicativos para ela que não fosse os da troça e os do riso frouxo da hora. Mas agora, diante da sobra de excessos e da falta de limites do governo em sua ânsia desmedida de alavancar votos e prestígio, vejo que a frase cabe perfeitamente ao sistema atual de absurdos que se vê pelo Brasil afora. Não bastasse a Copa do Mundo de Futebol em 2014, os Jogos Olímpicos em 2016, as desconfianças permanentes no COB, os favores e promessas de cada político, algum benemérito do poder público e do dinheiro alheio urge com a homenagem tardia aos campeões das cinco copas do mundo de futebol — cento e quinze jogadores, se contarmos vinte e três para cada copa, sem por nesta conta os técnicos, médicos e auxiliares. É só fazer os cálculos... Para presenteá-los, o governo federal quer dar a cada um algo em torno de 400 mil reais, pouco mais até. Não faz muito, o governo paulista foi obrigado a devolver aos cofres públicos o dinheiro dos Fuscas dado aos campeões de 1970, na gestão do senhor Paulo Maluf. O senhor Paulo Maluf não gostava de futebol, senão não o teria envergonhado com o seu gesto populista. Se a justiça entendeu assim, então como se pode conceber que nos dias de hoje a mão oficial do poder desbote as cinco estrelas da camisa canarinho com outro prêmio ainda mais imoral e mais caro? Afinal, todos os jogadores, sem exceção, receberam a recompensa que lhes cabia pelas suas conquistas e nunca reivindicaram coisa além que não fosse o reconhecimento pela glória das taças conquistadas com honra, orgulho e dignidade. Na sua coluna de domingo, no jornal A Tarde, o ex-jogador Tostão disse que podem tirar o nome dele da lista, não aceita o prêmio porque não vê sentido nessa homenagem atrasada e também porque não seria justo para com os atletas campeões em outras modalidades, nem mesmo com os colegas de copas perdidas que apesar de lutarem tanto não conseguiram trazer o caneco, além do que o dinheiro é público. Tostão nos demonstra o quanto é um homem de caráter e acima de tudo consciente de sua condição eterna de ídolo. Sabe o quanto fez e o que fez pela sua pátria de chuteiras, portanto não se faz preciso que o governo macule a sua bola, enchendo-a além das libras devidas e de maneira ignóbil. Se dinheiro está sobrando, que este seja aplicado na construção de quadras esportivas, ginásios, piscinas, para servirem a milhares de crianças e de atletas que desenvolverão suas habilidades, afinal, havemos de competir nas Olimpíadas de casa e para isso ainda não temos atletas. Ou será que os políticos dependurarão seus paletós imundos nos espaldares e vão à luta...? Queria ver a cara deles se nenhum jogador aceitasse essa homenagem indecente! “Não se ‘acederiam’ mais aos seus ‘alimites’”.
Escrito por Achel Tinoco às 17h37
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